domingo, 19 de fevereiro de 2017

Workshop em Nazaré Uniluz

Workshop
Caminhos para a Mudança
17 a 19/03
Nazaré Uniluz 

 Estamos vivendo uma grande transição como sociedade.
As formas habituais de viver parecem não atender mais aos anseios das pessoas. 
As estruturas que até então serviam como referência para nossas escolhas estão em crise. O momento que vivemos é muito desafiador, mas acima de tudo é muito criativo. Estamos diante da oportunidade de fazer novas escolhas que tragam mais realização e felicidade.

Propósito | Estilo de Vida | Relacionamentos | Vocação e Trabalho



Informações e inscrições:

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A Revolução dos Pluriaptos

 

A primeira vez que ouvi o termo pluriapto foi com Pierre Weil, há mais de vinte anos. Ele falava sobre a normose gerada pela perversa realidade do chamado mercado de trabalho, que anula o que temos de mais precioso e singular – nossa vocação – em nome da necessidade de definição de uma identidade profissional. Nesse contexto ele falava sobre os pluriaptos, pessoas que sentem inclinação para várias coisas que podem estar em campos de atividade bem diferentes. A vocação dos pluriaptos está no desejo de explorar muitas possibilidades do mundo e de si mesmos. São aptos para várias coisas simultaneamente. O que Weil advertia é que existe o risco de que essas pessoas acabem não se realizando em nenhuma delas. Esse é o conflito do pluriapto: precisar escolher e sentir que vai renunciar a outras possibilidades atraentes nas quais se sairia igualmente bem.

A questão é: por que precisamos escolher e renunciar ao que nos traria plena realização e evolução? De onde vem essa redução do nosso potencial ao que é funcional do ponto de vista do mercado? Essa é a lógica da sociedade industrial na qual as pessoas são formadas desde cedo para que se adaptem a um modo de vida baseado em produção e consumo.  Por que não podemos fazer várias coisas? A resposta mais óbvia é que não existe tempo suficiente pra isso. O modelo de trabalho tradicional exige dedicação de pelo menos 40 horas por semana. Se você estiver num trabalho cuja escolha tenha sido baseada somente na segurança financeira, com pouca ou nenhuma realização, o tempo pra fazer algo que traga felicidade é mínimo. Nessa lacuna é que entra o consumo que compensa a não realização. Você também pode ter um hobby, mas não é disso que o pluriapto precisa. Não dá pra ser feliz só nas horas vagas.

Pessoas com muitas aptidões e que fazem várias coisas são vistas como imaturas e sem foco. Na visão de mercado elas precisam se definir e seguir toda a vida profissional nessa atividade. Conheci uma psicóloga que também era vocalista de uma banda e cantava em bares à noite. Ela evitava falar sobre essa outra profissão no ambiente da psicologia com receio de que isso afetasse sua credibilidade como psicóloga. Na empresa em que trabalhei havia um executivo da área financeira que era baixista de uma banda de jazz e tocava em pubs da cidade. Poucas pessoas sabiam disso.

Existem pluriaptos famosos como Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, que, com igual talento, é piloto de avião (ele que pilota o Boeing do Iron), esgrimista, historiador, ator, roteirista, mestre cervejeiro e doutor em música. A que ele deveria renunciar? Michelangelo foi pintor, escultor, arquiteto, poeta e considerado um dos maiores gênios da história da arte do ocidente. A que ele deveria ter renunciado? Leonardo da Vinci foi pintor, escultor, anatomista, botânico, arquiteto, inventor, matemático, engenheiro – um homem com uma curiosidade ilimitada e múltiplos talentos. Imagina se esses homens vivessem hoje com alguém dizendo “o mercado exige que você tenha foco”?

Talvez todos nós sejamos pluriaptos, mas desde o começo da vida escolar nosso potencial e curiosidade vão sendo reprimidos. E hoje ainda mais. Crianças que não conseguem ficar sentadas em uma sala de aula engolindo conteúdos fragmentados e desconectados de sua realidade são rotuladas de hiperativas. Até o final da adolescência é preciso saber qual será a opção no vestibular, de preferência algo que dê dinheiro. E assim entramos todos no exército dos adultos com uma vida profissional definida. A maioria acaba renunciando aos anseios da alma e se torna um especialista e bom executor do que o mercado pede. O pluriapto é transdisciplinar e transgressor. Talvez sejam talentos que se recusam a ser domesticados para o chamado mercado.

A boa notícia é que estamos num momento de transição – que surge como crise – mas que significa a possibilidade de questionarmos a lógica da sociedade industrial. O mundo do trabalho passa por profundas mudanças e aquilo que foi garantia já não é mais. O emprego está acabando. O trabalho como principal elemento gerador de identidade pode estar com os dias contados. Toda a crise tem em si a semente da nova realidade. Na crise do mercado de trabalho está embutida a possibilidade de reinvenção da sociedade. A cultura do consumo está baseada na insatisfação do espírito pelo potencial humano não realizado. Cada um pode ser muitas coisas porque o que nos define não é um rótulo profissional. A lógica do “produzir e consumir” da sociedade industrial está dando lugar à dupla “versatilidade e criatividade” dos pluriaptos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A vida vem em ondas

“A palavra nem sempre resolve, mas faz parir a arte e possibilita comunicar, dizer ao outro e a si mesmo o que se vive. Nomear é abrir a possibilidade de comunhão, trocar impressões a assim enfrentar o que parecia indizível.”

Insights preciosos como esse povoam o livro de Sebastião Molina Sanches - A vida vem em ondas.*

Tião, como é carinhosamente chamado pelos amigos, é conhecido pela rara sensibilidade, talento com as palavras e refinado humor. É sempre um prazer ouvi-lo falar e ler seus textos. Assim como eu, é frequentador do Café Filosófico, onde chegamos a compartilhar mesa. Ele sempre tem uma pergunta inteligente e oportuna, que na sua elaboração mais parece uma aula sobre o tema.

Há pouco mais de três anos, Sebastião Molina se deparou com a dura realidade do diagnóstico de um linfoma (câncer no sistema linfático). Dessa experiência – uma das ondas da vida – nasceu este livro que é uma pérola daquelas que Rubens Alves tanto falava.

A leitura me emocionou do começo ao fim. O livro é dividido em capítulos que sinalizam cada ciclo do protocolo de tratamento do câncer. Ele consegue captar e expressar a dimensão subjetiva até mesmo da dolorosa rotina hospitalar – e com isso dar um outro significado. De alguma maneira, é preciso encontrar “ilhas de normalidade” quando a vida te coloca diante do impensável. 

 
É possível encontrar formas de celebrar o que merece celebração, já que a vida não se resume à doença. É necessário encontrar humor e poesia, porque a vida é maior do que a doença. Nessas horas, o mundo interno rico fornece os recursos para enfrentamento. A espiritualidade, o autoconhecimento e o cultivo de vínculos de afeto e amizade são fundamentais – e permitem dar sentido à experiência mais desafiadora. 

Um livro delicado, cheio de verdade, humanidade, sabedoria, humor e fé. Inspirador para qualquer travessia de deserto que nos desafie. Uma pérola que merece ser lida. 

Sandra Felicidade

*A vida vem em ondas – enfrentando e superando o câncer. Sebastião Molina Sanches – Campinas, SP: Pontes Editores, 2015.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Os 40 anos do Jogo da Transformação


Desde os anos 80 já tive inúmeras experiências com abordagens terapêuticas e grupos de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal (em São Paulo, Campinas, Curitiba e outros lugares) - e o Jogo da Transformação é um dos instrumentos mais completos e profundos que conheço.
O jogo foi criado em 1976 por Joy Drake e Kathy Tyler - na Comunidade de Findhorn/Escócia. 
A experiência com o jogo (dura de 6 a 8 horas) traz uma clareza enorme com relação ao tema abordado e gera insights valiosos. O jogo tem uma simbologia riquíssima e reproduz a complexidade e sutileza do processo de transformação a partir da visão integral do ser humano (nível físico, emocional, mental e espiritual). Cada jogador tem a sua trilha, assim como cada pessoa tem sua jornada de individuação. Não existe competição. Cria-se um ambiente de apoio, partilha e confiança. O tabuleiro é o "campo" que permite visualizar todos os elementos que estão presentes e como eles se afetam mutuamente. Cheio de sincronicidade. 
A maioria de nós conhece jogos de tabuleiro como brinquedo, mas os jogos de tabuleiro são encontrados em culturas milenares e são cheios de elementos arquetípicos. Jung iria adorar o Jogo da Transformação. 
Com Sara Marriott e Theresa Carlota
Conheci o jogo em 1988 - em Nazaré Uniluz (Nazaré Paulista), trazido para o Brasil pela escritora americana Sara Marriott. Em 1990 uma amiga trouxe um jogo da Escócia pra mim. Comecei a praticar com amigos e colegas de trabalho. Em 1998 fiz a formação e passei a aplicar o jogo profissionalmente como facilitadora credenciada. Tenho uma gratidão imensa por ser facilitadora desse instrumento. Ao longo desses mais de 25 anos de prática realizei incontáveis workshops nos mais variados contextos. Acompanhei processos impressionantes de indivíduos e grupos - e aprendi muito. Aprendi que toda dor tem uma cura e que a casa seguinte pode ser a Casa do Milagre. Continuo me transformando e participando da transformação de quem entra na trilha.

Com Mary Inglis da InnerLinks Associates - set/1998

Formação de facilitadores - 1998
Sou grata em especial à minha mestra Mary Inglis (InnerLinks Associates), com quem fiz a formação - e à Olga Balian (Taygeta), por tornar possível a versão do jogo em português e promover sua expansão no Brasil. Que o Jogo da Transformação continue contribuindo para transformar corações e mentes. 
Sandra Felicidade

quinta-feira, 26 de maio de 2016

A vida te deu um limão?

Algumas pessoas cruzam nosso caminho e deixam uma mensagem que é pra vida toda. Na adolescência (outro dia mesmo) eu tive um professor de redação maravilhoso chamado Manoel. Nós o chamávamos Prof. Manoelzinho. Ele tinha um carisma enorme com a turma e nos instigava muito para que escrevêssemos sobre o que nos inquietava. Eu costumava achar meus textos medianos. Um dia ele entregou minha redação e disse que gostaria de falar comigo depois da aula. Fiquei preocupada. Ele havia gostado muito do meu texto, mas ficou preocupado e queria saber se estava tudo bem comigo. Contei que estava passando por um momento muito difícil com a separação dos meus pais – não só pela separação, mas por todas as implicações. Ter pais separados não era uma coisa tão comum no início dos anos 80. Ele me ouviu com muita atenção e disse: “Esse é um limão que a vida está te entregando e veja só o que você fez. Seu texto está ótimo! A vida te deu um limão? Agarre e crie algo interessante com isso.” Bom, de lá pra cá fui aprendendo a transformar limões e a vida muitas vezes não dá tempo para o mimimi. Tem que ser rápido.

Não estou banalizando o sofrimento causado por uma mudança abrupta, muito ao contrário. Só que a vida pode não dar todo o tempo que a gente gostaria. Passado o tempo necessário para assimilar a nova situação, é preciso fazer movimentos práticos. Muitas vezes o que a gente chama de desastre são os ciclos da vida mesmo. As coisas mudam. Para que surja o novo alguma coisa precisa terminar antes. E ficar tempo demasiado esperando que as coisas voltem a ser como antes pode ser arriscado e inútil, as coisas não vão voltar a ser como antes. A medida da urgência e da cautela depende muito dos filhos. Críticas vêm aos montes, principalmente de quem nunca passou pelo que você está passando, ignore. Normalmente quem já passou pela mesma situação é muito mais empático e solidário, agradeça a presença desses seres benevolentes.

Em meados dos anos 90 abri uma empresa de marketing direto, trabalhando em parceria com uma agência de propaganda. Recém-saída de uma multinacional, queria um trabalho mais independente para poder ficar mais tempo com meus filhos ainda muito pequenos. O trabalho ia muito bem até que uma crise econômica fez nossos principais clientes dispensarem nossos serviços de uma hora pra outra. Foi um verdadeiro caminhão de limões descarregado na porta. Durante um tempo a gente ainda pensa que as coisas vão “voltar ao normal” – o que quer que isso signifique. Mas não foi o caso e era preciso mudar de perspectiva rápido. Foi aí que surgiu um convite de trabalho em Curitiba, cidade que vivia um boom com a chegada das montadoras. A decisão foi rápida, mas a transição foi gradual a fim de organizar tudo o que envolvia mudar para outra cidade com filhos pequenos. As pessoas diziam que era loucura mudar para tão longe, sem ter uma rede de apoio. Uma coisa que a gente aprende quando não há rede de proteção é saltar sem rede de proteção mesmo. Foi o passo de fé e foi a melhor coisa a ser feita. A mudança trouxe experiências de muito crescimento que não teriam existido se as coisas estivessem confortáveis.

Foto: Dalai Lama - Valores Humanos e sua prática na vida cotidiana
Ópera de Arame - Curitiba - 05/06 de abril de 1999
Já em Curitiba, participei de um seminário com o Dalai Lama e a fala mais marcante dele foi sobre sua experiência pessoal no exílio. Ele dizia que mesmo diante da situação mais adversa é possível encontrar coisas muito positivas que não aconteceriam sem aquela experiência. Ele falou sobre a dor de ter fugido de seu país e da opressão em que vive o povo do Tibet. Mas ele disse que foi isso que provocou a expansão do budismo tibetano com sua mensagem de compaixão. Ironicamente, a opressão da China impulsionou a mensagem central do budismo e chamou a atenção do mundo para a questão do Tibet. Ele próprio disse que não teria se tornado um cidadão do mundo com diálogos multilaterais como os que ele mantém hoje. Vale ainda enfatizar que os conhecimentos milenares do budismo têm contribuído muito com os estudos avançados no campo das neurociências.

Não penso que a gente precise sempre aprender pelo caminho mais difícil, dolorido. Acho que é muito bom evoluir com experiências agradáveis e desejadas, mas nem sempre vai ser assim. Então é melhor desenvolver uma plasticidade diante da vida, porque muitas vezes o que estamos encarando como negativo não é o fato em si, mas a percepção que temos dele. Meu querido mestre Gaiarsa dizia: “Ao entrar em uma situação, não vejo o que está acontecendo. Vejo somente se o que está acontecendo está ou não de acordo com o que devia estar acontecendo. O resto é ‘errado’, não devia ter acontecido, não devia estar ali. Precisa ser desfeito assim que possível. Ninguém pensa o único pensamento sensato: se não aconteceu o que se esperava, vamos experimentar de outro jeito.”

É melhor ter preferências do que exigências. Dessa forma, se as coisas tomam um rumo diferente do esperado isso não gera um sofrimento prolongado e desnecessário, apenas uma frustração momentânea e a necessária mudança de rota. Alguém duvida que a habilidade de transformar os limões da vida seja a habilidade do momento? Charles Einsenstein (Economia Sagrada) diz que as coisas não voltarão ao “normal”, simplesmente porque está surgindo uma nova normalidade. Então a velha forma de lidar com as coisas não vai funcionar mais. Por isso estamos vendo tantas crises no mundo. Isso não é necessariamente ruim, é uma nova ordem. Significa que temos que criar uma nova forma de conduzir a vida.

Muitas vezes tive que lidar com o limão que a vida trouxe. Aprendi a enxergar de outra forma e, sempre que possível, procuro tirar o rótulo de “bom” ou “ruim” daquilo que se apresenta. No fim, tudo é experiência - e alguns atributos a gente nunca desenvolveria se a situação tivesse sido sempre favorável. Concordo com Renato Russo, quando tudo parece dar errado, acontecem coisas boas que não teriam acontecido se tudo tivesse dado certo.

Sandra Felicidade